sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Dificuldades teológicas

Quanto mais eu leio os textos do Pastor Ricardo Gondim mais o admiro. Por mais espinhoso que seja o assunto, ele sempre o encara de frente. Sem medo de escandalizar, de melindrar ou, até mesmo, de constituir eventuais paradoxos. Acaso a vida não é emoldurada por eles? O presente texto foi extraído de uma resposta dada (aparentemente) a um outro ministro da Palavra. Fonte: Impacto da Graça.

Certa vez, uma jovem, graduada em Filosofia pela USP, fez a seguinte indagação ao Pastor Gondim. “Ricardo, cadê a vida abundante prometida por Jesus”?. Pego assim de supetão, eu não soube o que responder. Tentei me safar com outra pergunta. “O que você quer saber?”, na verdade eu só queria ganhar tempo com minha réplica. Ela não cedeu: “Pastor, quero entender. O que Jesus prometeu tem conexão com a realidade da vida? Ou a vida abundante que ele falava era apenas um desejo utópico dos apóstolos?”. Nervoso, insisti em perguntar ainda procurando ganhar tempo: “Como assim?”. “Se Jesus prometeu que seus seguidores experimentariam vida abundante, quero saber por que não vejo acontecer concretamente?”.

Nessa hora tive que dar a mão à palmatória. “Marli, você tem razão. A vida abundante prometida por Jesus aparece muito mais nos discursos do que na concretude da vida. Entretanto, o problema não é dele ou dos apóstolos, mas nosso”.

O discurso religioso promete muito mais do que cumpre. Dificilmente constatam-se evangélicos com qualidade de vida melhor do que as pessoas não convertidas. Problemas conjugais, instabilidade emocional, patologias psíquicas, permanecem intocados na grande maioria das igrejas que alardeiam que seus fiéis terão uma “vida abundante”. Enquanto os auditórios se maravilham com discursos triunfalistas que asseguram o melhor casamento, felicidade total no trabalho e paz duradoura, enormes problemas são varridos para debaixo dos tapetes ou justificados como “falta de fé”, “desobediência”; ou resultado de “ataques do diabo”. Por que isso acontece?

Priorizou-se a “salvação” como uma esperança a ser alcançada depois da morte. E as igrejas, cada uma se acreditando mais legítima, se especializam em oferecer o bilhete para a vida eterna - que só vai começar quando o coração parar de bater. Assim, meticulosas em “dar certeza da salvação”, não se preocupam em ensinar como viver do lado de cá. Com esse modelo, comumente se vê gente segura de que vai para o céu, mas sem saber lidar com os momentos triviais da existência.

Em minha experiência pastoral, já tive o desprazer de aconselhar mulheres super espirituais, que se gabam do nome estar “escrito no livro da vida”, mas intoleráveis, mal-resolvidas e tristes. Recentemente precisei gastar três horas com um pastor que há anos prometia o céu para quem “levantasse a mão para aceitar Jesus”; só que ele não sabia resolver seus dilemas sexuais. No meio de nossa conversa, abatido ele me confidenciou: “Ricardo, estou vivendo num inferno”.

Sua missão, meu caro Diego, é ajudar às pessoas a tratarem a vida eterna como uma possibilidade para aqui, para a terra. Aliás, a dimensão transcendental da salvação não compete a você; não depende de seus esforços e não acontecerá como resultado de sua confiabilidade ou unção. Salvação, vida eterna, foi conquista da cruz. Ela é obra vicária de Cristo, o mérito será sempre dele. Vida eterna é distribuída indistintamente a todos pela graça; e só o Espírito Santo convence do pecado, da justiça e do juízo.

Concentre-se em mostrar que o reino de Deus é chegado e que está entre nós. Livre das condenações da lei, sem precisar compensar os pecados com penitências e, sem ter que ganhar o favor divino com obras, a humanidade pode dar início ao projeto de humanizar-se. Neste propósito divino, crescemos em maturidade, nos solidarizamos com os carentes, exercitamos misericórdia e sempre defendemos a justiça.

Você precisa desvencilhar-se do antigo modelo de evangelização, que promete uma salvação para depois do último fôlego. Comece a pregar a chegada do Reino, só assim as pessoas se sentirão estimuladas a mudar e essa tarefa é extraordinária.

Mude o mote de suas pregações. Aborde questões práticas sobre matrimônio, cordialidade, cidadania, vulnerabilidade, compaixão, preocupação ecológica, dignidade da mulher, educação infantil. Acredito que o cristianismo verdadeiro deveria preocupar-se muito mais com o jeito como as pessoas guiam seus automóveis do que em dar-lhes “garantias” de que vão para o céu.

Não, não pense que desconsidero o céu; essa é nossa esperança eterna, nossa maior riqueza. Contudo, eu realmente creio que o destino eterno de cada indivíduo foi garantido pelo sacrifício de Cristo na cruz e que, não precisando mais nos preocupar com esse importantíssimo assunto, podemos nos concentrar nos demais. Alguns são, sim, menos importantes diante da eternidade, mas fazem uma enorme diferença para a felicidade das pessoas.

Minha sugestão é que você releia os Evangelhos; procure as mensagens em que Jesus ensinou a ganharmos a vida no presente. Você se lembra daquela passagem de Mateus 16.26? “Pois, que adiantará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Antigamente eu entendia esse texto como uma advertência para que não me tornasse um grande conquistador ou um milionário e acabar no inferno.

Hoje eu o leio numa dimensão existencial. Acredito que Jesus advertia seus discípulos para que não tentassem nenhuma conquista, se no processo perdessem a alma existencialmente. Para Jesus não adianta querer ter tudo (inclusive o céu) se nessa busca nos tornarmos amargos, calculistas e torpes.

As religiões, inclusive o cristianismo, já garantiram que muita gente inclemente, perversa e promotora da morte iria para o céu.

Eu já não peço que as pessoas levantem a mão, concordando com a minha pregação; como também não lhes asseguro que, daquela hora em diante, receberão um selo que lhes garantirá o céu. Hoje convido as pessoas a começarem uma peregrinação. Cientes do amor de Deus, todos podem tomar o caminho proposto por Jesus de Nazaré. Nesta trilha, na companhia do Espírito Santo, todos se tornarão novas criaturas".

5 comentários:

Belchior, Sampa disse...

Você tem toda razão, Alex. Também gosto muito dos textos dele. Sempre muito coerentes e próximos da verdadeira realidade dos cristãos. É um pastor comprometido com a verdade que vemos nas igrejas e na vida secular. Jamais com a verdade abstrata ou aquela que só existe na mente dos fariseus e enganadores.

Parabéns pelo blog. Muito bom.

Gitara Nunes disse...

Leio tudo que me cai nas mãos do Pastor Ricardo Gondim.

Uma figura!

Sei que nem deveria falar isso, mas sou fã de carteirinha dele.

Abração!

outroevangelho disse...

Parabéns Alex, pelo seu blog.
Muito bom, já estou seguindo-o também!

Um grande abraço.

Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.

Por: Marcio Alves

Pensador Cristão disse...

Gostei do texto, mas não entendi uma questão: Para ele a salvação não pode ser dada instantâneamente a uma pessoa que "levanta a mão" e aceita a Jesus como salvador? Não será essa a doutrina da graça?

Alex Malta Raposo disse...

Querido irmão,

Em primeiro lugar, obrigado pela visita.

Entendo que o Pastor Gondim não quis dizer isso. A confissão pública é algo maravilhoso. "Nós somos de Jesus e ponto final". Que, em nome do nosso Salvador, as pessoas continuem levando suas mãos nos cultos e aceitando a esse Deus vivo, razão de nossas existências.

Vamos ler novamente o trecho citado por vc: "Eu já não peço que as pessoas levantem a mão, concordando com a minha pregação; como também não lhes asseguro que, daquela hora em diante, receberão um selo que lhes garantirá o céu. Hoje convido as pessoas a começarem uma peregrinação. Cientes do amor de Deus, todos podem tomar o caminho proposto por Jesus de Nazaré. Nesta trilha, na companhia do Espírito Santo, todos se tornarão novas criaturas".

O que o Pastor Ricardo quer dizer é que ministro da Palavra não pode garantir a salvação de ninguém, como muitos, inclusive, fazem. No texto, ele fala na necessidade de uma "peregrinação", ou seja, de uma caminhada com Cristo, de uma vida confessional, de uma existência caracteriza por um coração verdadeira transformado. A salvação é uma consequência disso.

Se não consegui responder à sua pergunta, me perdoe.

Um forte abraço e que o Senhor Jesus continue nos abençoando.