Em virtude da grande paixão que sempre tive pela música, vivi, a partir da minha conversão, um grande conflito: ouvir ou não ouvir música secular? Num primeiro momento, joguei todos os meus CDs e discos de vinil na lata do lixo. Uma verdadeira defenestração musical. Na minha cabeça, um expurgo santo. Até ali, achava que todas as músicas compostas por ‘crentes declarados’ eram boas e que todas as outras, escritas por não evangélicos, eram inspiradas pelo inimigo.
Demorei para entender, por exemplo, que uma canção que enaltece o amor entre um homem e uma mulher não pode ter a assinatura do diabo.
Como atribuir ao inimigo a inspiração de músicas que celebram a vida e glorificam a obra de Deus? por acaso essas coisas foram criadas por ele?
Contam que, certa vez, a cantora e compositora Dolores Duran (1930-1959) foi passar um final de semana em uma fazenda no interior de São Paulo. No dia seguinte, ao acordar, bem cedinho, ficou maravilhada com o nascer do sol, logo após uma noite de chuva intensa. O resultado daquele êxtase diante da criação de Deus foi a canção “Estrada do Sol”, musicada por Tom Jobim.
“É de manhã, vem o sol
Mas os pingos da chuva que ontem caiu
Ainda estão a brilhar
Ainda estão a dançar
Ao vento alegre que me traz esta canção
Quero que você me dê a mão
Vamos sair por aí sem pensar
No que foi que sonhei
Que chorei, que sofri
Pois a nossa manhã
Já me fez esquecer
Me dê a mão, vamos sair
Pra ver o sol”
Agora, me respondam, dá para atribuir uma declaração dessa ao diabo?
Em seu blog, o escritor Mário Persona destaca dados interessantes sobre o mesmo tema: “Muitos dos hinos tradicionais que cantamos possuem letras cristãs colocadas sobre melodias que um dia foram música secular. Um exemplo é o Battle Hymn, da guerra civil americana, que era um hino militar e ganhou uma letra cristã (também conhecida como "Vencendo Vem Jesus").
Existem também hinos nacionais, como o da Inglaterra, que ganharam letras cristãs ou porções de música clássica. Li em algum lugar que a melodia de "Amazing Grace" também era secular, emoldurada, depois, por uma letra cristã.
Portanto, como em todas as coisas, o importante é ter discernimento. Assim como uma música secular pode causar dano à fé de alguém, por incluir palavras torpes ou estimular a sensualidade, uma música considerada "gospel" pode fazer o mesmo, porém de forma muito, muito mais sutil.
Hoje os cantores evangélicos são aclamados como ídolos, têm fãs e produzem música do mesmo modo que faz qualquer cantor secular. Na minha opinião, uma música de amor, com uma letra limpa, é menos prejudicial do que muitos rocks evangélicos que vêm sendo tocados por aí”, conclui Persona.
Um irmão me contou recentemente que, certa vez, repreendeu seu filho porque o mesmo cantarolava uma música com uma letra muito estranha. Para sua surpresa, entretanto, o menino rebateu: “Ué, papai, o pessoal toca essa música direto na nossa igreja.” Diante de um pai espantado, a criança acrescentou que, na verdade, tratava-se de uma banda de rock gospel.
Hoje, passados e vencidos todos os meus conflitos sobre o assunto, me permito ouvir uma ou outra música secular. Por outro lado, faço questão de lembrar que nem toda “canção rotulada de cristã” entra na minha casa. Em 1 Tesssalonicenses, 5:21, lemos: “Examinai tudo, retendo o que é bom”. Assim, cabe a cada um de nós analisar, sob a orientação do Espírito Santo de Deus, o que nos abençoa e o que vilipendia a nossa fé.